Nem tudo é para todos
domingo, 5 de agosto de 2018
O indiano
Na praça aqui do bairro fui levar minha filha para dar uma volta. Andar ao ar livre. Ver outras pessoas. Brincar no parquinho. Enfim, um programa de dia de domingo.
Ao estacionar, um senhor me aborda:
- Do you speaking English?
- No. – Respondi seco e com um tom de deixe-me em paz.
Seu aspecto parecia de um pedinte. Mas ele não insistiu. Virou e saiu.
Bem, fui ali para passear. Fazer hora. Curtir uma horinha ao ar livre com minha filha. Coloquei ela no carrinho, demos uma voltas. Brincou um pouco no balanço. Não fomos na gangorra pois não estava sombra. O movimento de pessoas estava fraco.
Já fazia quase uma hora que estávamos na praça quando vi novamente o homem que havia me abordado bem na chegada. Acenei para ele com um “hi”. Ele perguntou novamente: “ Do you sepeak English? “ e “Are you understand me? “ Acompanhados de um sorriso.
Dali em diante trocamos algumas palavras em inglês. Não sou fluente, mas consigo articular pequenas frases. De português ele não falava quase nada. Mas falava inglês muito bem.
Tivemos uns cinco minutos de conversa que mexeram bastante comigo.
Podia ser um golpista. Pensei. Mas de logo tirei essa possibilidade pois as palavras dele me pareciam sinceras. Ele falava inglês muito bem. Nesses cinco minutos de conversa descobri que ele é um indiano. De 55 anos. Que chegou ao Brasil num navio cargueiro, e estava por aqui a procura de um irmão que mora em Ilhéus.
Ele me disse o nome dele, mas não sei como se escreve. Muçulmano. Não entendi tudo que ele falou, mas a saída dele da Índia para o Brasil tem a ver com o fato da sua religião.
Aqui no Brasil disse que já ia completar 3 meses. Disse que aqui é perigoso (Dangerous foi o termo que usou). Estava sem documentos. A roupa e os sapatos que o vestiam tinham sido dadas. Roupa do corpo e uma pequena mochila. Só isso. Me contou que havia dormido na praça, num daqueles bancos. Ao relento. Sob chuva.
Reforço que o inglês dele era bem fluente. E parecia mesmo ser sotaque de indiano. Olhando para ele, tinha feições do povo indiano. Cor da pele. Formato do rosto. Tinha barba longa. Era um indiano. Não um pedinte qualquer. Não um bêbado pedindo esmola para ir beber cachaça.
Disse que tinha um irmão aqui no Brasil. Em Ilhéus. Precisava ir até Ilhéus . Chegando em Ilhéus ele acharia o irmão. Como se Ilhéus fosse uma cidade muito pequena. Mas ele demonstrava certeza nesse propósito. Já tinha saído da Índia num navio cargueiro que parou em diversos países, entre eles o Panamá. Disse três meses e meio de viagem.
Na rodoviária aqui rem Salvador (bus station) , os seguranças o colocaram para fora. Por conta das vestes dele. Pelo aspecto de mal tratado. Ele não tinha documentos (haviam sido roubados).
Ele queria pegar um ônibus para o Terminal da França. De lá ele iria para Ilha (Island). Em seguida ele conseguiria ir para Ilhéus. Era oque ele queria. Ir se encontrar com o irmão.
As pessoas o ajudavam com moedas. 1 real aqui. Outro ali. Um pedaço de pão. Mas ninguém o havia ajudado a ir para Ilhéus. Receava que as autoridades lhe mandassem de volta para Índia. Estava sem comer.
Dizia que seu irmão trabalhava em um empresa de petróleo, e que passava 30 dias viajando no mar e 30 dias em terra.
Carregava um pedaço de papel que alguém havia escrito para ele em português. O pequeno texto era um pedido de ajuda para ir para Ilhéus.
Eu dispunha de um pouco de dinheiro na carteira e dei a ele. Desejei sorte. Ele disse me olhando bem nos meus olhos “
God bless you. Lacrimejou. Parecia que alguém, enfim, havia entendido o seu propósito e acreditado nele. Disse-me algo do tipo : Salaam Aleikum. (já tinha ouvido essa saudação na tv, mas busquei na internet para saber como se escreve). Disse a ele que queria ficasse bem. Que conseguisse encontrar o irmão. Disse a ele para não beber (me referindo a bebida alcoólica). Ele disse que era um homem sério, que não estava brincando (joking). Tirou o boné e disse que era a feição de um indiano. Recomendei cuidado. Que Deus o abençoasse também.
Sabe o que passou pela minha cabeça? minha preocupação? Que ele pegasse esse dinheiro e fosse num bar e tomasse de cachaça. Acompanhei o indiano pelo olhar. Ele realmente passou na frente de um bar... Mas não entrou... Foi direto ao ponto de ônibus. Ele havia me dito o ônibus que pegaria (T França).
Como disse... Essa conversa demorou cerca de cinco minutos. Foi uma aula. De inglês e de vida. Fazia tempo que eu não conversava em inglês com alguém. Mas muito mais do que isso, esse indiano mexeu comigo. Mexeu com meu olhar sobre esse mundo em que vivemos. O indiano não era um pedinte que vai de um em um com a mão aberta pedindo dinheiro. Ele não era um pedinte profissional. Ele era muito simples, assim como os indianos são. Queria pouco, muito pouco.
Esse é um cidadão do mundo. Nós somos cidadãos do mundo. Somos todos irmãos.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Momento descompressão
Um dia me contaram uma historinha da águia. Era mais ou menos assim... A águia se afastava para o alto e de lá ela enxergava melhor a sua caça. De lá mirava e fazia uma descida brusca para acertar seu alvo em cheio. Águia é predadora assim? Ou é o gavião? Nem sei. Mas aí vem a moral da história : as vezes é preciso se afastar para planejar melhor suas ações. Para ter uma visão mais ampla e saber com precisão onde está o alvo.
Por esses dias me chamaram para participar de um trabalho, como poderia dizer, um trabalho focado numa determinada tarefa a ser entregue. Retiram-me do meu dia-a-dia. Saio do gerenciamento de minha equipe por um breve tempo. Tratou-se de um trabalho que necessitava de pessoas com alto grau de conhecimento e comprometimento (oh!). E por isso me chamaram(oh! de novo?). Chamarem-me para trabalhar, e muito. Só que o tal trabalho, no seu desenvolver, teve muitos picos de estresse e alguns picos de ociosidade.
E do meio para o fim esse tal trabalho caducou. Expirou-se. Perdeu sua finalidade e ainda assim me mantiveram por lá. Aí acabaram os picos de estresse e restou a ociosidade. Acho que vai ser por pouco tempo (o que é bom dura pouco, hehehe).
Pois bem, de longe pude observar algo do meu trabalho que de perto eu não tinha tanta clareza. Pude ver, de longe, como é o terreno, os habitantes, o comportamento na minha ausência.
De tempo em tempo vou pedir para ir para um trabalho desses. Mergulhar em outro estresse e poder observar, de certa distância os meus colegas de equipe.
O próximo passo? Ser certeiro na descida brusca e acertar o alvo que pude ver, contraditoriamente, de longe com mais clareza.
sábado, 13 de junho de 2015
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Começar
Começo a digitar um texto num notebook para ninguém. Na verdade para mim mesmo. Ler depois? Quem sabe? Nunca tive muito hábito de leitura. Não sei se é impaciência, ou se é preguiça mesmo. Já li alguns livros sim. Gostei de alguns, emocionei-me com outros. Outros não me fizeram sentido. Mas vamos lá. Deixo claro que aqui é a minha confusão de pensamentos. Isso. Vou escrevendo. Desculpe mais uma vez, é o hábito da palavra. Vou digitando o que vem à cabeça. Sem regra. Por qual razão? Nem eu sei explicar. Tive essa necessidade. Não pretendo divulgar esse blog. Nem com os amigos. Será que se alguém digitar no google "nem tudo é para todos" e lá vai aparecer esse blog? Acho que não por dois motivos. Não pretendo pagar anúncio para o google. Acho também que o google apresenta os resultados por relevância (quantidade de acessos), e como eu já disse. Desculpe. E como já digitei anteriormente, estou digitando para mim mesmo. Depois discorro mais dessa finalidade. Mas porque "nem tudo é para todos"? Veio assim na cabeça esse tema. Começa pelo fato de pensar de vez em quando: Somos todos iguais? Perante a Deus sim, mas e perante à lei? E perante a sociedade? Nascemos todos nus, mas alguns recém-nascidos foram acompanhados desde a concepção por exames médicos, sejam laboratoriais, sejam de imagem. Outros nascemos sem sequer algum pré-natal. No mundo e aqui perto, já nascemos diferentes. Com oportunidades diferentes. Discurso socialista? Não. Na verdade quando penso sobre política, sei que conheço pouquíssimo. Participo muito menos ainda. Sou contra muita coisa, e sei que muita coisa não muda porque o povo assim prefere, mesmo que inconsientemente. Não sou socialista, nem comunista, nem liberal, nem de esquerda, nem de direita. Entendo que deveríamos termos todos as mesmas condições. Ponto. Daí cada um segue e escolhe o que quer fazer. Mas aí viraria uma confusão total. Sem regras, sem sistema. O Capitalismo reduz tudo ao dinheiro. Tudo que queremos fazer precisamos de dinheiro. Adoro cantar, mas se ninguém está disposto à pagar para me ouvir, morrerei de fome. Amo arrancar dentes. Como muitos precisam desse serviço... Na hora da dor de dente pagam tudo o que tem para não sofrer desse mal. Aí vem outro e cobra um preço mais barato. Enfim, a lei da selva capitalista é dura. Procure fazer algo que seja importante e que te remunerem por isso. É a regra. É o sistema. Não acho que o sistema socialista seria interessante na prática não. Como dividir tudo igual? Não sei. Só sei que há injustiças em todo momento e em todo lugar. É um dilema que às vezes me pego pensando sobre ele. Mas não tenho nem um esboço de solução. A religião explica? Não sei. Só gosto da ideia que Deus é justo, e sabe pesar na sua balança as injustiça que vivemos neste mundo. Mas isso é uma conta a ser acertada no dia do Juízo. E aqui? como termos como diminuir essa injustiça diária? Não sei. Vamos seguindo. Por hoje é só. Outro dia digito um pouco mais.